Crise Mundial: 12 reflexões e conceitos Gestálticos correlatos

O presente texto foi transcrito por Tancredo Lobo de um áudio do Dr. Jorge Ponciano Ribeiro, sobre o atual momento em que se encontra o Brasil: pandemia do Corona vírus (Covid-19), Abril de 2020. Prof. Tancredo Lobo é membro do Conselho Pedagógico do Centro Gestáltico de Fortaleza.

 

CRISE MUNDIAL: 12 REFLEXÕES E CONCEITOS GESTÁLTICOS CORRELATOS

Texto: Dr. Jorge Ponciano Ribeiro
Presidente da Associação Brasileira de Gestalt-terapia,
Transcrição do áudio para o formato de texto:
Tancredo Lobo, psicólogo, Gestalt-terapeuta, Doutor em Educação, Pós Doutorado em Psicologia (UFC), professor da URCA.

 

1 – SILÊNCIO (Figura/Fundo; Imaginário e Real)
2 – PAI NOSSO, PÃO NOSSO (Relação Ambiente/Organismo)
3 – FRAGILIDADE, PREPOTÊNCIA E HUMILDADE (Conceito de Campo)
4 – FRATERNIDADE UNIVERSAL (Novas formas de contato)
5 – FAMÍLIA UNIDA (Novas formas de contato)
6 – NOVOS HÁBITOS, HÁBITOS NOVOS (Ajustamentos criativos)
7 – O CORPO (Sistema de contato; Self; Presença; Cuidado; Inclusão)
8 – MORTE, VIDA E SAÚDE (Intencionalidade; busca de sentido)
9 – ESPIRITUALIDADE, RELIGIOSIDADE (Dimensão estrutura ontológica do ser humano)
10 – O QUÊ? O COMO? O PARA QUÊ? (Resgate da realidade e experiência imediata)
11 – O MUNDO DIFERENTE (Relação Ambiente/Organismo)
12 – AMBIENTALIDADE (Dimensão humana perdida, não sentida)

 

Queridos amigos e amigas.

Preocupado com a situação que nós estamos vivendo, eu pensei em fazer uma fala sobre como eu estou vendo toda a situação mundial. Eu estou encaminhando para vocês uma fala longa, de uma hora e meia, onde eu faço uma reflexão sobre como nós, psicólogos gestaltistas, podemos ver a situação que está ocorrendo no mundo. O ideal seria que você pudesse ouvir essa fala por inteiro. Mas, é óbvio que, como se trata de uma fala longa, talvez você não tenha tempo para isso. Eu espero que valha a pena você ter lido, e estudado e escutado até o fim. Do fundo do meu coração, mando um beijo e um abraço para todos os meus colegas psicólogos gestaltistas do mundo inteiro, esperando que essa crise realmente traga para nós benefícios extraordinários e que nos ajudem a ver melhor. Um beijo para todo mundo. Obrigado. Segue a minha fala.

Quero lembrar duas coisas, até para que esse nosso trabalho fique na histórica da Gestalt-terapia do Brasil. Eu me apresento: eu sou Jorge Ponciano Ribeiro, eu sou presidente da ABG – Associação Brasileira de Gestalt-terapia, e, no momento, extremamente preocupado com toda essa história que nós estamos vivendo do corona vírus no que diz respeito ao nosso Encontro Nacional de Gestalt-terapia que ocorrerá em outubro. Segundo as previsões aqui de Brasília, haverá um pico da doença por volta da metade de abril. E, no início de maio, a gente espera que a situação esteja sob controle. Então, temos uma certeza e uma esperança de que o nosso congresso em outubro poderá ocorrer com tranquilidade. Então, fica também essa lembrança de que é muito importante que o congresso vai se seguir a toda essa situação que nós temos vivido até agora. Estou tentando fazer uma leitura tranquila do que está acontecendo no mundo… e eu fiz algumas observações.

 

1 – SILÊNCIO (Figura/Fundo; Imaginário e Real)

Vou começar pedindo a vocês que façamos um minuto de silêncio, para entrar em contato conosco, entrar em contato com a humanidade, entrar em contato com essa configuração que a humanidade está tomando agora, e que a gente possa perguntar: quem sou eu, agora. Vamos fazer um minuto de silêncio, entrando em contato com tudo que está acontecendo e perguntando: quem sou eu, agora.

 

2 – PAI NOSSO, PÃO NOSSO (Relação Ambiente/Organismo)

Pensando em que eu poderia falar para vocês, me veio quase que uma necessidade de retornar àquele momento em que Jesus estava orando, e os apóstolos observavam a distancia. Quando Jesus terminou sua prece, eles se aproximarem e disseram: mestre, ensina-nos a rezar. Jesus disse: quando rezardes, rezai assim:

Pai nosso que estás nos céus; santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade; assim na terra como nos céus.

O pão nosso de cada dia, nos daí hoje. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mau. Amém.

Quem dera a humanidade tivesse entendido essa mensagem, que ela contempla das maneiras mais diversas todas essas situações por que nós estamos vivendo agora. Mas, sobretudo, duas situações nessa prece me chama a atenção: É que ele fala “Pai nosso” e “Pão nosso”.

Esta é uma oração que não é da Igreja Católica, não é do Cristianismo apenas, essa é uma oração mundial. Todos nós acreditamos que existe um Deus, que é Pai. A maioria de nós diz: Pai Nosso. Depois diz: o Pão Nosso. Não é pão meu. É pão nosso de cada dia, nos daí hoje.

Eu fico pensando na nossa linguagem: o que é Figura? O que é Fundo nessa prece?

Parece que o que nós pensamos, no primeiro momento, é que “pai nosso” é a figura, porque é o pai. O “pão nosso” é fundo. Mas eu acho que a humanidade trocou o momento dessa prece, o “pão nosso” virou figura e o “pai nosso” virou fundo.

Está todo mundo preocupado com seu pão, com a sua casa. Porque o “pão nosso” não é apenas trigo, é muito mais que isso. É aquilo que eu preciso para viver. Esse é o pão de cada dia. Mas a humanidade se dispersou. Ela foi numa direção oposta. Cada um pensa em si, como diz o ditado: cada um pensa em si e Deus para todos, e cada um faça aquilo que achar que é o importante.

Então, eu gostaria de deixar bem claro, no início desta nossa fala, essa contradição entre aquele “pão” que é o nosso sustento, que é a nossa vida, que é a nossa história, que é o jeito de estarmos no mundo, e aquele que é o grande doador desse “pão”, que é a figura divina. Esse descompasso, aquilo que eu chamaria de imaginário e aquilo que é real, porque a gente fala uma prece… como diz Martin Buber, “a palavra transporta o Ser”, essa prece é apenas uma palavra, ela vira uma palavra. E, ao virar uma palavra, ela perde o seu verdadeiro significado. Quero insistir em que nós pensemos no “pão nosso de cada dia”, mas que esse “pão” possa significar uma prece universal, comunitária. E que nós possamos, na medida do possível, sobretudo nós gestalterapeutas, que aquilo que falamos, que dizemos, que pensamos possa significar uma realidade para o nosso corpo.

 

3 – FRAGILIDADE, PREPOTÊNCIA E HUMILDADE (Conceito de Campo)

Quero lembrar dessa sensação universal de fragilidade.

Há três, quatro meses atrás, essa palavra não fazia sentido. Que somos frágeis. Que precisamos dependemos um do outro. O oposto de fragilidade é unipotência, prepotência, poder. Essa era a linguagem do mundo. Uma linguagem de poder, de prepotência, de assertividade: “Eu posso”; “Eu quero”; “Eu mando”. O corona vírus veio tirar a humanidade desse lugar de prepotência e de biopotência. E ele está nos conduzindo a um lugar de extrema fragilidade, que é uma palavra que a humanidade não conhece. E essa passagem, da prepotência à fragilidade e da fragilidade à humildade, porque é isso que está acontecendo agora. Húmus = terra.

Mais do que nunca, nós estamos conscientes, talvez não seja uma awareness universal, ainda, que a posição nossa não é de prepotência, não é de fragilidade, é de humildade, que significa o reconhecimento daquilo que penso, daquilo que sinto, daquilo que faço e falo. É eu estar dentro daquele limite a partir do qual eu me reconheço Eu-mesmo. Então, a grande questão que estamos vivendo hoje, e a Gestalt-terapia nos dá a palavra, é uma questão de Campo. Qual é o campo? Pensem três meses atrás: qual era o seu campo? Qual era o campo da sua cidade? Qual o campo que o mundo vivia? O campo da prepotência, do poder, da indiferença pelo outro. Então, o campo é o lugar onde nós acontecemos. É o lugar onde as nossas energias se encontram. É o lugar onde a relação ambiente e corpo acontece. O campo mudou. Ou melhor, o corona vírus mudou o campo. O campo agora em que estamos vivendo é de medo, angústia, temor… esse é o campo. Tem lugar para a esperança? Óbvio que tem. Tem lugar para a saudade? Óbvio que tem. Mas, sobretudo, o campo agora é o campo do amor. É uma palavra que a gente desconhece. A gente fala: eu te amo; você me ama. Mas, o amor é prático. O amor, mais do que uma emoção, ele é uma ação. Amor é fazer com o outro o que você faria com você mesmo. O amor é, de algum modo, você olhar para o outro e reconhecer você mesmo. Como se fosse uma identificação. Esse é o campo. Esse é o contato. Essa é a grande palavra nossa. O amor é o instrumento do contato. O contato é o instrumento do amor.

Então, acho que depois de nós pensarmos no silêncio, na prece, na fragilidade, agora estamos no conceito de campo, que eu gostaria que isso pudesse ressoar; e, obviamente, no segundo momento, vocês, como eu também, terão oportunidade de entender o conceito de campo. Tem o campo geográfico (eu moro em Brasília. Nesta cidade, entre as quadras, tem um espaço verde que é correspondente a uns cinco campos de futebol. É o lugar onde as pessoas estão andando. Até pouco tempo atrás, quando eu ando de manhã, vejo as pessoas descendo com cachorros, com gatos, com os animais que eles têm em casa. E eu penso: onde estão as crianças? Acreditem, esse espaço está cheio de crianças agora. Desapareceram os cachorros, os gatos, e agora estão as crianças. Mudou o campo. As crianças estão em casa, os pais estão em casa. Estão descendo com as crianças). A gente olha…nós somos psicólogos, a gente precisa fazer uma leitura da realidade que se oferece. Isso é que é fenômeno. Qual é o fenômeno? É aquilo que está se oferecendo à sua consciência e do qual você toma consciência. É incrível como esse campo mudou e está mudado.

Feita essa reflexão, eu passo para um outro tema (a minha intenção é deixar grandes temas, que podem ser discutidos depois por mim, por vocês no seu cotidiano).

 

4 – FRATERNIDADE UNIVERSAL (Novas formas de contato)

Estamos preocupados com a França, com a Itália, com a Espanha. Nós do centro-norte, estamos preocupados com o sul, pois é mais frio.

São novas formas de contato. Esse é um outro universo. O contato que é o nosso instrumento de trabalho. O contato que supõe presença, supõe encontro, supõe cuidado, supõe inclusão. Isso é contato. É isso que nós estamos começando a entender que é a doença no mundo – o mundo estava doente, o mundo era um sintoma – a gente escutou muitas vezes dizer que o mundo estava na Uti. Agora, ele está mesmo na Uti. A gente escuta que pessoas morreram… enfim. O cuidado – as pessoas de máscaras. As pessoas passam perto das outras sem respirar, com medo de respirar porque o vírus está por ali. O vírus pode estar em qualquer lugar: no seu bolso, no seu cabelo. Existe uma fraternidade negativa no sentido de olhar o outro, de ver o outro, mas também está nascendo uma fraternidade real. É preciso que exista um vírus para entendermos que somos irmão. A França, a Itália, a Espanha, o Estados Unidos, a China… esses países se tornaram um pouco nosso cotidiano. Está todo mundo falando desses países. Está todo mundo preocupado. Estamos todos preocupados com os brasileiros… quantas mortes já aconteceram… a isso estou chamando de fraternidade universal. Mas é claro que essa fraternidade agora é um pouco reativa. Ela é compulsiva. Mas, a gente espera, na verdade, que ao final, entre as grandes lições que essa crise está trazendo para nós, que a gente entenda, e mais que isso, sinta realmente que nós precisamos mudar a nossa forma de contato. Que nós precisamos estar presentes na realidade do mundo e nossa. Que nós precisamos nos encontrar com o outro. Não importa quem ele é. Que nós precisamos cuidar do outro. Que nós precisamos de nos incluir no outro, como uma forma gestáltica universal. Uma nova configuração para a humanidade daquilo que eu estou chamando de fraternidade universal.

Esse é um outro caminho eu está sendo aberto agora para a humanidade. Nós sabemos que a China, a França, a Patagônia, a Argentina… que todos somos irmãos. O mundo está percebendo agora que ninguém se salva sozinho. Nenhum de nós, nessa situação, se salvará sozinho. É importante que a gente crie novas formas de contato. E é esse contato que vai significar contato enquanto totalidade, estar inteiro na minha relação comigo, inteiro na minha relação com o outro. Esse é outro fenômeno que estou entendendo que está acontecendo no mundo atualmente.

 

5 – FAMÍLIA UNIDA (Novas formas de contato)

Quase sempre, os grandes vão para o trabalho. As crianças ficam nas creches, ficam nas escolas, ficam com os avós. Os psicólogos que trabalham com crianças estão percebendo uma coisa estranha: muitos pais estão dizendo que as crianças estão ótimas, que as crianças estão normais. É claro que as crianças estão normais. É a ausência do pai e da mãe; a entrega da criança à babá e à escola que fazem com que as crianças assumam determinados comportamentos, que são ajustamentos criativos disfuncionais, mas são os comportamentos que elas podem fazer. Mas, agora com o pai e a mãe, e a família reunida, as crianças voltaram… é um pai jogando bola, andando de bicicleta… estou vendo muita coisa aqui nessa praça em frente à minha janela. Eu vejo a praça movimentada de criança.

É o que estou chamando: esse vírus fez essa outra coisa acontecer. A família, por razões de medo ou angústia, seja qual for a razão, a família está se reunindo de novo. Ao menos é essa situação aqui de Brasília. Não sei como é que está em outros lugares. Mas, esse fato da família unida e reunida é extremamente importante para o futuro da humanidade. Porque o conceito de família, de algum modo, ele está muito vago. São inúmeras variáveis que estão interferindo na construção e na constituição da família. Agora, por razões práticas, por razões de emergência e de urgência, está todo mundo reunido. É um fenômeno que também vai precisar ser conhecido, ser vivido, e ser estudado. A família que se reúne num novo campo. Um novo estilo. Uma nova forma de ajustamento criativo. A família agora, por razões operacionais, e de medo até, está reunida.

 

6 – NOVOS HÁBITOS, HÁBITOS NOVOS (Ajustamentos criativos)

Estamos mudando nossos hábitos. Por exemplo, a gente escuta: quando você sair à rua, cuidado com a maçaneta da porta, com o botão do elevador, cuidado para não subir segurando o corrimão da escada. São pequeninas coisas que a gente fez a vida inteira sem prestar atenção. E agora você está proibido de tocar no botão do elevador, de tocar no corrimão da escada, de ficar respirando no elevador por causa do ar condicionado. Mais os hábitos de casa: a gente está voltando a almoçar juntos, a tomar o café junto, a cear junto, a assistir a televisão, o programa, a jogar junto. São novos hábitos que estão sendo instalados, que a gente não sabe como vai ser daqui a um mês ou três meses, ou mais até, quando essas situações mudarem, como vão ser os hábitos. Mas, não há dúvida nenhuma, que a humanidade muda, por várias razões… é o carro, é o ônibus, é o metrô… nós estamos com medo.

O medo agora mora na gente. O medo está habitando o corpo da gente. E esse medo está criando novos hábitos e hábitos novos, como lavar as mãos. Hábitos que estão constituindo um novo jeito de estar no mundo. E esses hábitos não são coisas que estão acontecendo apenas no Brasil. Esses hábitos estão pelo mundo a fora.

 

7 – O CORPO (Sistema de contato; Self; Presença; Cuidado; Inclusão)

O nosso corpo é um grande clandestino. Nosso corpo não é uma sombra, claro. Aquilo que fala Merleau-Ponty (não é porque o Merleau-Ponty fala, é isso mesmo): eu sou meu corpo. Meu corpo sou eu. Eu moro aqui. Eu não moro na minha casa. Eu não tenho um corpo. Eu tenho um carro, tenho cachorro, eu tenho um jardim, mas, eu não tenho um corpo. Eu sou um corpo. A gente esquece.

De manhã cedo, a gente levanta, olha no espelho, penteia o cabelo, escova os dentes, toma café e vai embora. Em nenhum momento você pensou: eu sou corpo. Eu posso perguntar para vocês aqui agora, evidentemente é difícil ter a resposta, se algum de vocês pensou hoje eu sou um corpo. Talvez, agora, estamos pensando “eu sou um corpo” por outras razões.

Estamos atentos aos mínimos sinais que o nosso corpo possa dar. É como se, de novo, esse vírus estivesse trazendo de volta a realidade do nosso corpo.

Eu sou um corpo. Meu corpo sou eu. Eu moro aqui. Eu habito esse corpo. Eu sou o guardião do meu corpo. Nosso corpo é o nosso Self. É a imagem que eu tenho de mim mesmo. Eu olho para o meu corpo: olho para as minhas mãos e agradeço. Olho para o meu olho e agradeço. Olho para os meus ouvidos… tudo agora está amplamente aguçado. Estamos atentíssimos ao nosso corpo.

Então, o nosso corpo vai ser algo que vai mudar. O corpo bonito é o magro, é o gordo, é o negro, é o vermelho, é o amarelo? Qual é o corpo bonito? É o seu corpo. É o meu corpo. Então, essa visão de corpo está mudando e ela vai mudar também.

Nós estamos fazendo a nível universal ajustamentos criativos. Alguns ajustamentos são criativos. Outros, como diz Paul Goodman, são criadores. Qual é a diferença? O ajustamento criativo mexe apenas na forma, não mexe na estrutura. Por exemplo: você visualiza uma cadeira e diz “cadeira”. Você diz “cadeira” por causa da forma, por causa do funcionamento, que lhe remete à natureza do objeto. Mas, você não vê a estrutura. Por exemplo: nosso processo terapêutico. Perguntamos: a gente mexe na forma ou na estrutura das pessoas? A resposta cada um vai dar. Eu diria que, quando o cliente, naquele momento em que houve uma cura, que ele está se sentindo curado, certamente foi um ajustamento criador, porque no ajustamento criador você mexe na estrutura da pessoa. A estrutura não é rígida. Ela é flexível, digamos assim. Então, no processo terapêutico, ora você mexe na forma (a pessoa ficou mais delicada, ficou mais em silêncio, a pessoa passou a falar um pouco mais). Então, quando isso acontece, é um ajustamento criativo, porque mexeu com a forma. Mas, de vez em quando, e como Buber fala “por graça”, há uma mudança. E mudança significa que você mexeu na estrutura da pessoa.

Então, eu acho que o nosso corpo, os nossos ajustamentos de agora para frente, vão precisar que abandonemos mais a estética para andarmos em direção à ética. Daquilo que na verdade constitui o nosso ser no mundo, que é o meu corpo. O modo como eu o constituo. Acho que, muito provavelmente, muitas das mudanças que o mundo vai sofrer não vão ser ajustamentos criativos apenas, que vai mexer com a forma do mundo, vão mexer com a estrutura do mundo, com a estrutura do corpo. O nosso corpo vai ter que ser diferente. O modo de dormir, de comer, o modo de andar, o modo de pensar. O nosso corpo já está vivendo esse processo de mudança de estrutura. Nós vamos ser diferentes quando toda essa história acabar. Estaremos passando de ajustamento criativo funcional para ajustamento criador.

E, no momento, existem muitos ajustamentos criativos disfuncionais, que são os nossos sintomas. O sintoma é um pedido da nossa estrutura para que a gente preste atenção no nosso corpo. Os sintomas agora estão em alta. Estamos atentíssimos à possibilidade do primeiro sintoma. É incrível como nós estamos atentos ao nosso corpo, aos nossos sintomas, porque atrás de tudo isso que era fundo – que é o medo da morte – virou figura. A morte agora está em alta. Quem se incomoda com a morte? Ninguém. Ninguém se incomoda com a morte. A pessoa pode ficar meses sem pensar que ele vai morrer. “Eu tenho 18, 20 anos. Vou viver mais 30, 40 anos”. Pode passar 20, 30 anos sem pensar que vai morrer. A morte é fundo… nem sei se é fundo mesmo. Ela simplesmente não existe, pensam. Agora, não. Agora, a morte virou figura.

 

8 – MORTE, VIDA E SAÚDE (Intencionalidade; busca de sentido)

Essas três coisas agora estão em causa. A nossa saúde passa pela academia, por cirurgias plásticas, o que não é saúde. Isso são coisas que a gente faz, a arte de algum modo corrige a natureza, mas, não necessariamente, quando você faz uma cirurgia plástica, está cuidando da saúde. Até pode ser o contrário.

Neste tempo em que nós estamos vivendo, a saúde é tudo que você precisa. Você pensa saúde. Você age em nome da saúde. A saúde virou a coisa mais importante. Aí vem o grupo de risco. Eu, por exemplo: eu sou muito cuidadoso. Eu ando todos os dias. Eu faço três coisas a vida inteira: eu sou muito cuidadoso com meu sono; eu sou muito cuidadoso com minha alimentação; e eu sou muito cuidadoso com meu movimento. Eu estou no grupo de risco, estou beirando 90 anos. Daqui a dois anos, estou fazendo 90 anos. Mais do que nunca, a morte está ali na linha. Eu juro para você: eu não estou preocupado com a morte. Não estou mesmo porque é uma preocupação inútil. Porque ela vai vir de qualquer jeito, mais hoje, mais amanhã. A preocupação é com a saúde, é com a vida. Eu quero viver… na minha idade, mais uns dez anos… quem sabe 105, quem sabe. Deus é bom pai. Minha mãe morreu com 100 anos. De repente, eu tenho mais uns 15 anos neste planeta. É claro que eu estou superatento, já que eu sou do tal “grupo de risco”. Mas, eu estou atento por causa da vida. Porque a vida é maravilhosa, é maravilhoso viver. É maravilhoso você enxergar. É maravilhoso você ouvir. É maravilhoso você tocar. É maravilhoso você comer. Sentir gosto. Fazer amor. É a vida.

Há todo esse movimento agora de afastar a morte – porque não é um movimento pela vida, não é um movimento pela saúde, é para afastar a morte.

Então, eu espero que este seja um outro aprendizado: que o medo da morte nos conduza a olhar a saúde como instrumento da vida. A saúde é o nosso instrumento de vida. A saúde é remédio, é cura. Uma cura fantástica, maravilhosa. A natureza como cura, o cuidado com a natureza, a ida à natureza, a utilização da natureza como remédio, como cura.

Ainda nesse item, acho que a gente pode conectá-lo com a questão da intencionalidade. O que é intencionalidade? É a chegada do sentido. A intencionalidade, de algum modo, é o para quê das coisas. A pergunta é: para quê… a que serve eu estar vivo hoje? Por causa do meu carro? Por causa da minha filha, por causa do meu filho?  A que serve?

A razão pela qual eu estou vivo não é em função de fulano ou de sicrano. A razão pela qual estou vivo é o sentido que eu dou à minha vida. É o para quê da minha existência. O para quê da minha existência é tudo que eu preciso para poder encontrar energia nesse campo biológico, campo psicoemocional, campo comportamental, campo transcendental. É tudo que eu preciso para me sentir, realmente, eu.

A intencionalidade é a busca de sentido. Eu diria, não é deste sentido aqui-agora (claro que estamos neste aqui-agora, sem dúvida), mas eu diria que é um “agora” quando eu me transporto. Por exemplo, eu Jorge: daqui a 12 anos, eu terei 100 anos. Como será meu “agora” lá? Estou dizendo para você que não basta você se imaginar daqui a cinco anos, daqui a dez anos, deve ser um imaginar real, concreto, vivido. Porque o que permite você ser saudável não é só o que você está fazendo agora, é a expectativa que você tem, o que você espera daqui cinco ou dez anos, fazer isso ou fazer aquilo. Essa expectativa de vida é extremamente importante no seu aqui-agora, porque aquele aqui-agora daqui a dez anos nasce no aqui-agora que você está vivendo agora. É essa conexão entre o aqui-agora de hoje e o aqui-agora de amanhã que eu chamo “o caminho da saúde”. O caminho da vida. É você esperar, de coração, que vai chegar saudável. Porque não basta você ter a idade que eu tenho, por exemplo, e dizer “ah! Eu tenho esta idade”. Eu, com a graça de Deus e o meu jeito como estou no mundo (eu estou no mundo um pouco sem idade, é como se eu não tivesse uma idade, a idade não chegou para mim ainda, de algum modo). É isso que estou desejando para vocês nessa crise que estamos vivendo. A gente não vai jogar essa crise fora.

Nós somos psicoterapeutas. Nós somos aqueles que cuidam. O psicoterapeuta não é aquele que cura. É aquele que cuida. Então, essa crise tem que nos ensinar a ser realmente terapeutas, cuidadores. Portanto, este item da saúde e da vida é importante, porque a saúde e a vida, em si, valem a pena. Não é porque eu vou morrer, é porque estar vivo vale a pena.

 

9 – ESPIRITUALIDADE, RELIGIOSIDADE (Dimensão estrutura ontológica do ser humano)

Isso tem muito a ver com a Gestalt-terapia. Estou acabando de escrever um capítulo sobre a espiritualidade numa visão da Gestalt-terapia.

A espiritualidade muitas vezes é vista como uma coisa difícil, de pessoas especiais, talvez pessoas santas, sei lá o que. Mas, a espiritualidade de uma maneira simplicíssima, é uma dimensão humana. E é uma pena que essa dimensão se perdeu. Ela se perdeu e se converteu em religiosidade, por exemplo. Você reza, você vai à igreja, você comunga, você reza o terço todo dia, você vai numa procissão… isso não é espiritualidade. Evidentemente, é uma coisa paralela.

A espiritualidade é uma dimensão humana do mesmo modo que a materialidade. Nós somos corpo, alma, espírito. O corpo tem a ver com quantidade, tem a ver com matéria. A alma, o espírito, têm a ver com qualidade, com invisibilidade. Assim como eu sou matéria (e matéria gera materialidade), eu sou espírito (e espírito gera espiritualidade). Portanto, a materialidade e espiritualidade são dimensões humanas. Mas, o que aconteceu? A ciência pegou o corpo; as religiões pegaram o espírito, havendo uma fragmentação, uma dualidade histórica, ontológica. Esse foi um erro muito grande. Todos nós sabemos que as universidades, por exemplo, e talvez muitos psicólogos, não conseguem entender a questão da espiritualidade na psicoterapia. A psicoterapia é um momento de espiritualidade. Todas as vezes que você está no mundo da compaixão, no mundo da ternura, no mundo do afeto, no mundo do cuidado, no mundo da beleza, você está no mundo da espiritualidade. Não dá para separar a matéria. Matéria é espaço. Espírito é tempo. O corpo é matéria, é quantidade, é espaço. O espírito é qualidade, é tempo, é invisibilidade. As duas coisas andam juntas o tempo todo. A gente cresceu escutando que a espiritualidade é coisa da igreja, é coisa de santo. Não, a espiritualidade é uma dimensão humana. Muitas vezes, essa espiritualidade entra numa dimensão paralela, que caminha na direção do transcendente. Muitos problemas que acontecem no consultório, por exemplo, compulsão, escrúpulo, o TOC, são atitudes que lá no fundo é uma questão espiritual, não é uma questão medicamentosa, simplesmente.

Este não é um tema que pretendo desenvolver tanto aqui, mas esse vírus também traz o problema da espiritualidade e da religiosidade para a terra. Vocês viram, dias atrás, o Papa Francisco, num ritual de rara beleza estética, dando uma benção que chamou de “Urbi et Orbi”, para Roma e para o mundo, com o santíssimo sacramento, na linguagem da igreja católica. Foi um ritual de extrema beleza. Ali se podia sentir a espiritualidade, independentemente de você acreditar no dogma da eucaristia, o ritual, enquanto ritual, era de extrema beleza e delicadeza. Existem outras falas, também vídeos de extrema beleza, que nos leva ao encantamento.

Toda vez que você entra no mundo do encantamento, é o mundo da espiritualidade. Nós perdemos… não sabemos mais nos encantar. O primeiro encantamento é com você. Se encantar consigo mesmo. Dizem: ah! Eu estou velho, velha. Meu corpo está feio. Não, a sua idade é a sua história. O seu corpo é a radiografia da sua história. A coisa mais bela que você tem é o seu corpo. Não importa a idade. Isso é uma visão espiritual.

Essa espiritualidade, que hoje está muito como religiosidade, pequeninos gestos, pequeninas formas de entrar em contato com a sua angústia, com o seu medo, você reza, você promete etc, está no mundo da espiritualidade, mas não é espiritualidade.

No meu livro Holismo, Ecologia e Espiritualidade [Summus, 2009], especialmente o penúltimo capítulo, é todo sobre este assunto. Eu falo do silêncio, falo de jejum, falo da oração, da meditação, eu falo da caminhada na natureza, falo do seu contato direto com Deus como instrumentos, como formas de espiritualidade. O ser humano, hoje, está procurando contatar com esse lado dele, que ele ignora, que é a espiritualidade. Só que esse vírus está explicitando, de uma forma claríssima, a nossa fragilidade, nossa impotência, nossa pequenez. E nós estamos tentando suprir essas coisas através da oração, da espiritualidade. Então, são ganhos (sem dúvida, temos grandes perdas), essa possibilidade de pensar como nós gestaltistas caminhamos nesse mundo agora. Eu estou atendendo poucos clientes on line. É uma coisa diferente. Não é o que a gente quer, mas é o que a gente tem. E vamos administrar da melhor maneira possível. É isso mesmo. De repente, a gente está apreendendo e aprendendo um jeito novo de lidar com os nossos clientes.

 

10 – O QUÊ? O COMO? O PARA QUÊ? (Resgate da realidade e experiência imediata)

Os gestaltistas, nós trabalhamos com o quê? O como? e o para quê?

Há três meses, nós todos sabíamos o que eram as coisas. E, porque nós sabíamos o quê eram as coisas, nós sabíamos o para quê daquelas coisas. Como sabíamos o para quê daquelas coisas, nós tínhamos o como, para adquirir o para quê.

A Gestalt-terapia é uma postura fenomenologico-existencial, de maneira simplíssima. Quando dizemos que a Gestalt é uma postura fenomenológica, estamos tratando do quê das coisas. O quê é a palavra que define a essência da natureza, dos objetos. Então, quando nós estamos trabalhando e falamos: o que você está sentindo? Como você está sentindo? Quando eu pergunto pelo quê, estou perguntando pela essência das coisas. Quando eu pergunto pelo como, estou perguntando pela existência das coisas. Nesse sentido, a Gestalt é uma postura fenomenológico-existencial, por causa do quê e do como. De uma maneira simples, evidentemente. Eu acho que, com esse vírus, está fazendo com que percamos o quê das coisas, o como das coisas, e o para quê das coisas. Estamos perdidos. Estamos sem rumo. Estamos à espera. Parece que estamos em um trem, imaginariamente rumando para a última estação, onde encontraríamos todas as respostas. Mas, nós nunca chegaremos à última estação. Sempre ficaremos na penúltima. Até porque a última é a morte, o “descanse em paz”. E viver é movimento, é mudança.

 

11 – O MUNDO DIFERENTE (Relação Ambiente/Organismo)

Está todo mundo dizendo que, quando tudo terminar, vai ser um mundo diferente. Diferente como? Diferente em quê? Qual vai ser o “para quê” do mundo daqui a três, quatro ou cinco meses?

A minha pergunta, e a nossa pergunta, deve voltar para o nosso consultório. Como que eu, gestaltista, estou lidando com o quê, o como e o para quê das coisas? Porque, está claro, para cada um de nós, que antes sabíamos das coisas: os empresários sabiam das coisas, os caminhoneiros sabiam, o alfaiate, o cozinheiro sabia das coisas; todos nós tínhamos um quê definido, claro, porque, de algum modo nós sabíamos o para quê das coisas. De algum modo, o para quê condiciona o quê das coisas. E, no meio disso, vem o como. É isso que está mudando. O que vai mudar é o como nós vamos lidar conosco, com o outro e com o mundo. Porque vai surgir um novo quê, vai surgir um novo para quê. São muito importantes essas palavras. Elas moram no nosso consultório. Elas habitam cada um de nós. É importante que nos preparemos para a bonança que vai se seguir à tempestade que nós estamos vivendo. Espero profundamente que isso aconteça.

Ouvi uma palestra em que o orador falou que tudo mudou, tudo está mudando, vai continuar mudando e que nós teremos um mundo diferente daqui uns seis meses, um ano. O que é um mundo diferente? O que era figura? O que era fundo? O que vai ser figura? O que vai ser fundo? Como vão ser os nossos ajustamentos criativos?

Aquilo que nós chamamos da fenomenologia, que é o resgate da experiência imediata, daquilo que está diante de mim, como vamos trabalhar essa ideia de resgatar o sentido das coisas depois de tudo que estamos vivendo? Depois dos medos? Depois dos sustos? Depois do cuidado que estamos tendo com tudo isso?

Lembro um conceito muito comum no livro Gestalt-terapia [PHG, Summus, 1997], que é a relação organismo/ambiente (quando Goodman escreve essa palavra, com travessão, está deixando claro que não se pode falar de um sem falar do outro). Há três meses, a relação de campo organismo/ambiente era clara. Quando falamos que o próximo mundo vai ser diferente, estamos dizendo que a relação do “campo de presença” (Monica Alvin), que é a relação organismo/ambiente está mudando e vai mudar. Não tem como você falar, de agora em diante, do seu corpo sem falar do mundo. Não tem como você falar do mundo sem falar do seu corpo. Esse é um aprendizado, para nós gestaltistas, dos mais importantes: que a relação ambiente/organismo (prefiro assim) mudou. Primeiro, está mudando para você saber que não tem como falar do ambiente sem falar do seu corpo. Você é a natureza. A natureza é você. Você é o mundo. O mundo é você. A gente não tem essa ideia.

 

12 – AMBIENTALIDADE (Dimensão humana perdida, não sentida)

Ambientalidade (que é o tema do congresso, junto à coexistência e sustentabilidade).

Imagine um triângulo. Na base, você escreve “ambiental”; à esquerda, você escreve “animal”; e à direita, você escreve “racional”. E, no centro, você escreve “Eu”. Eu sou ambiental, animal, racional. Qualquer um dos três que você tira, a pessoa desaparece.

No livro Gestalt-terapia referido, Perls diz o seguinte: tudo que se retira de um objeto e o objeto desaparece, aquilo que se retirou faz parte da essência do objeto. Eu penso que essa dimensão – Ambientalidade – é da essência humana. Eu sou, ao mesmo tempo, ambiental, animal, racional. Só que essa dimensão ambientalidade desapareceu na história do mundo. Você queima, polui, corta como se você fosse dono do mundo. Os mesmos elementos que compõem a natureza, a terra, o fogo, o ar, e a água, sou eu. Quando você olha para uma árvore, você a vê fora de você. Mas como a arvore nasce da terra, você diz que a árvore é filha da terra. E nós?. Eu nasci da barriga da terra. Nós somos filhos da terra. Os mesmos elementos que compõem o universo, somos nós. A minha idade cósmica é 14 bilhões e trezentos milhões de anos. Eu sou filho do universo, da história do universo. Isso se chama ambientalidade.

Eu acredito que o congresso vai trazer uma novidade para o mundo inteiro. Espero que até lá toda essa agonia tenha passado. E que a gente de fato possa celebrar uma vida nova e uma nova vida, celebrando no congresso o tema da ambientalidade. Nós somos natureza. A natureza somos nós. Eu sou o planeta. O planeta sou eu. Essa fragmentação causou o coronavirus, eu não tenho dúvida. Se os gregos (há 2.600 anos), Aristóteles, por exemplo, tivessem definido o homem como ambiental, animal, racional (eles definiram como animal racional, faltou o terceiro elemento, a terceira dimensão humana), nós não estaríamos vivendo o que vivemos.

Uma vez, eu fui visitar na Alemanha a chamada “floresta negra”. Confesso que, quando cheguei lá, não sabia que estava em uma floresta. Porque floresta para nós aqui é outra coisa. As árvores eram contadas, porque cortaram tudo, não sobrou nada. Essa é a história: nós destruímos. Nós não temos piedade da terra nem do ar. E essa é a materialidade que o mundo vive, a riqueza, o poder, o dinheiro, tudo isso é a parte material. Essa parte da natureza, o respeito pelo verde, pela água, pelo ar, o respeito pela terra, isso é um problema secundário, pensam. O problema da sustentabilidade não é planetária, é humana. O que vai fazer a sustentabilidade do planeta é a sustentabilidade humana. É o homem ter respeito pelo fogo, pela água, pelo ar, pela terra, porque ele é fogo (eu sou 36,5º fogo); eu sou 75% água; eu sou 25% mineral; e o ar habita o meu corpo. Todos os elementos que compõem a natureza compõem a mim. Eu sou a natureza. A natureza sou eu. Essa dimensão se perdeu.

Outro exemplo: Aqui em Brasília tem lotes de 1200, 5000 e 20000 metros. Um vizinho meu comprou um lote de 1200m ao lado da minha casa. Na entrada do lote dele tinha um pequizeiro imenso, lindo, lindo. A primeira coisa que ele fez foi cortar o pé de pequi. “Pequi é comida de pobre”, disse o caseiro que ele mandou cortar porque era comida de pobre. Não vou dizer que todo mundo raciocina assim, mas o indivíduo corta uma árvore na maior simplicidade.

Estou, não só fazendo um apelo ao congresso que, se Deus quiser, vai acontecer, com este tema, mas, se for chamar de pecado, o pecado capital da humanidade foi o abandono da dimensão da ambientalidade.

Saiu há uns 15 dias, na revista da UERJ, um artigo meu sobre esse tema da ambientalidade. Se quiser estudar mais, o artigo contempla a relação da ambientalidade, da sustentabilidade, da espiritualidade.

Quero terminar dizendo que esse vírus veio para nós retornarmos a essa dimensão perdida, ignorada e não sabida da nossa essência humana que é a nossa ambientalidade. Ambientalidade que é, juntamente com racionalidade e animalidade, os três componentes da nossa essência. Somos, ao mesmo tempo, ontologicamente, metafisicamente, animal, racional, ambiental. O vírus veio porque nós perdemos, ao longo da história, essa dimensão nossa. E, querendo ou não, estamos retornando à natureza, estamos retornando ao nosso corpo, estamos retornando à nossa espiritualidade. Estamos pelo mundo a fora valorizando o que é natural, o que é mais disponível daquilo que estamos chamando de ambientalidade. Essa dimensão está voltando por força de um vírus, que está incomodando o mundo, nossa realidade. E que a gente está suplicando a Deus, porque parece um castigo. Se for um castigo, que já chega. Acho que já entendemos a linguagem do castigo. Espero que não seja. Isso faz parte da natureza.

Espero que a minha fala possa de algum modo contribuir para o trabalho de vocês. E, nós, como gestalterapeutas, interrogamos: o que é Gestalt? E definimos como uma configuração, cujas partes estão organizadas, articuladas, formando uma unidade de sentido (pense numa cadeira. Ela tem várias partes e estas partes estão organizadas, articuladas, formando um todo significativo. Por isso, dizemos: é uma cadeira). Então, vamos fazer a nossa vida ser uma Gestalt.  Vamos olhar o nosso cliente como uma Gestalt. Então, pergunto: quando começa uma gestal-terapia? No momento em que essa Gestalt, que é nosso cliente, no momento em que eu começo a perceber, e ele também, que uma das partes que faz parte dessa configuração está destoando das outras, é esse olhar para essa parte que está destoando, que causa dor em você e no cliente, é esse olhar que transforma a Gestalt em Gestalt-terapia. Por isso, nós precisamos também aprender, quando as pessoas perguntarem: o que você faz? Você diz: eu faço Gestalt-terapia. O que você é? – Sou Gestalterapeuta.

Agradeço a presença de vocês. Agradeço a oportunidade desses ajustamentos acadêmicos aqui dentro da minha cabeça. De ter podido pensar esses 12 pontos, que são uma Gestalt. Eles estão organizados, estão articulados, e comandam uma única coisa que se chama cuidado, que se chama amor, que se chama natureza, que se chama eu, você e nós.

Que Ele nos abençoe, nos guie. Nos mostre o caminho. Que o Espírito nos ilumine.

Que nós, gestalterapeutas, possamos perceber que o que está acontecendo atualmente é uma fragmentação, é uma dualidade, e que a nossa abordagem é, por natureza, o contrário da fragmentação. Heráclito (filósofo grego), há 2600 anos, disse: tudo muda; tudo está ligado a tudo; tudo flui e nada permanece. Isso é a Gestalt: tudo muda, o mundo está mudando, tudo está ligado a tudo e tudo está ligado a todo mundo. Não obstante, tudo está mudando, tudo está ligado a tudo, o mundo é Um. Isso é Gestalt-terapia. É esse espírito de unidade que a gente deve levar para nossa vida, para nossa família, para os nossos alunos e, sobretudo, para os nossos clientes.

Muito obrigado. Muito obrigado, mesmo.